Fora de Cena

 cbizarro    01/06/2013

fg-Saindo de cenaOutro dia, andando por uma das mais movimentadas ruas do Centro da cidade, eu e um amigo, sem conseguirmos avistar nenhuma faixa de pedestres, nos aventuramos a atravessar.

No meio do caminho, veio da esquerda um ônibus em alta velocidade; ou, no mínimo, andando rápido demais para os padrões do local.

Num rompante de assombro, me viro para ele e pergunto:

– E agora, o que é que a gente faz?

Ele responde sem titubear:

– Tá na hora de sair de cena.

E voltamos correndo para o ponto de partida.

Segundos depois de quase ter sido brutalmente atropelada, me encontrava às gargalhadas por conta da expressão descolada, certeira e bem lançada do meu parceiro de travessia, transbordando uma lucidez desconcertante, mesmo no pico da mais pura adrenalina.

Sem dúvida, é uma arte saber a hora de sair de cena, tirar o time de campo, sumir do mapa, fingir que vai ao banheiro e desaparecer.

Mas, de vez em quando, uma força superior decide dar um comando de pausa ou stand by na sua vida e, sem opção de recuar ou avançar, você simplesmente tem que parar. Ficou doente.

É uma sensação muito estranha para os protagonistas e supostos diretores de suas próprias histórias, sem aviso prévio, serem tirados do palco, do set, da luz dos holofotes, do alvo das câmeras. E o pior: o filme continua.

A tão organizada mesa do trabalho vira Terra de Ninguém, os compromissos inadiáveis são cancelados num piscar de olhos e a secretária do lar larga a vassoura para esquentar seus pés, sentada na beirada da sua cama, em plena tarde de terça-feira, dia que deveria ser útil.

E pensar que, aos quinze anos, quebrar a unha antes de uma festa ou sentir cólicas bem na hora de ir para a praia eram verdadeiros dramas.

Depois dos quarenta, você sente uma dor absurda na barriga oriunda do nada, fica à beira de uma internação hospitalar e respira aliviada porque descobre ser uma doença que tem tratamento.

Os parâmetros para se identificar uma tragédia mudam bastante ao longo dos anos.

Aí, então, como todo bom ser humano, de memória curta, assim que se recupera e volta à rotina, reclama do monte de trabalho na mesa, do excesso de compromissos agendados e das iniciativas alucinadas da auxiliar doméstica.

É fácil ser o tal quando se está com a saúde tinindo e a pleno vapor.

Difícil é manter isso em mente, sempre.

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{ 1 comentário… leia-o abaixo ou acrescente um }

Cumade 30/10/2013 às 15:05

Gostei muito da história!

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