Graças a Deus, mas nem tanto…

 cbizarro    01/04/2012

Onibus 2 125Sexta-feira chuvosa. Muito chuvosa. Digamos que o mundo estava se desfazendo em água e nós, pobres mortais sacrificados diariamente pelo fato de morarmos na Barra da Tijuca e trabalharmos no Centro da cidade, mais uma vez estávamos esperando nosso velho e bom ônibus do Condomínio que nos levaria sãos e salvos a nossa residência.

Entretanto, aquela viagem nos reservava uma surpresa.

Esclareço logo que minha condução é exclusiva e altamente selecionada, na medida em que apenas quem tem a carteirinha da associação, que agrega vários condomínios da área, pode ingressar naquele meio de transporte, sendo rigoroso o sistema de fiscalização e controle, até mesmo através de blitz durante o percurso.

Como pego o ônibus no segundo ponto em direção à Barra, é raro ter problema em achar um bom lugar para sentar. Procuro escolher sempre a janela, que, apesar de não abrir, oferece uma maravilhosa e falsa sensação de mais espaço e me protege das inconvenientes cotoveladas e “bolsadas” na cabeça quando há movimento no corredor.

Acontece que já no primeiro ponto entrara um cidadão, com carteirinha oficial e tudo, e que, segundo informações posteriormente prestadas pelo motorista, trajava inclusive terno e se dirigiu imediatamente ao banheiro.

Em que pese todo o status do passageiro, boa coisa não fez no cubículo situado no final da condução. E seus talentos logo se espalharam por absolutamente todos os centímetros cúbicos do retângulo metálico sobre rodas.

Quando chegou minha vez de entrar, aliviada porque estava saindo da chuva e ansiosa por chegar logo ao seio do lar, tive uma das maiores decepções da minha vida: parecia que estava adentrando numa fossa, respirando num penico ou, para ser mais filosófica, ingressando na cloaca máxima de Roma.

“Que cheiro horrível é esse?”

A chuva aumentando, quanto mais tarde pior o trânsito, meu olfato é apuradíssimo, será que vai melhorar? As dúvidas pipocavam em minha mente e por carregar uma echarpe sempre na bolsa para me proteger do ar condicionado gélido, resolvi que seria melhor ficar e lutar, passando a só respirar usando o tecido como filtro.

Para facilitar a estratégia, prendi um dos lados do lenço no apoio dos óculos de modo a que apenas os olhos e a testa ficassem de fora. Não sei se me parecia mais com um cowboy ou com uma mulher islâmica. E assim prossegui, forte em meu propósito e acreditando ter feito a melhor escolha.

Cada pessoa que entrava se expressava dizendo praticamente a mesma coisa, numa espécie de linguagem universal: “Meu Deus, que cheiro é esse? O que aconteceu nesse ônibus? Que cheiro horrível? Gente, o que que é isso?”

Os mais tímidos franziam a testa, arregalavam os olhos e olhavam para baixo num ritual de conformismo com a derrota e a má sorte daquele fim de tarde.

Os mais antigos na situação constrangedora assistiam a cada ingresso e a cada nova vítima, comparando as mesmas exclamações, e aproveitavam para dividir revelações.

Um deles disse que se a mulher estivesse ali seria de grande valia, pois carregava sempre uma latinha de VICK na bolsa e um pouquinho daquela pomada de cheiro ativo na entrada das narinas salvaria a todos. Não pude deixar de registrar que ela poderia ter ganho uma grana forte, alugando a lata, pois a demanda seria grande e certa.

O espírito de solidariedade, assim como o odor pútrido, contaminou as pessoas e uns davam força aos outros.

Um homem asseverou: “Vai melhorar!”

O outro respondeu: “Com certeza, porque pior que isso não pode ficar!”

Uma mulher declarou: “Acho que vou vomitar…”

Alguém retrucou: “Vai nada, daqui a pouco você não vai conseguir sentir cheiro nenhum. É que nem tinta, você acostuma.”

Uma garota teve a brilhante ideia de acender um fósforo, técnica utilizada para disfarçar odores indesejáveis quando se vai ao toilette na casa dos outros, mas um coro forte e afinado logo advertiu: “Nem pensar. O ônibus vai explodir!!!”

Realmente, uma faísca que fosse diante daquela concentração de gás metano poderia ser fatal.

Aí, a mesma garota teve a ideia de se acender um cigarro, para que um cheiro horroroso prevalecesse sobre o outro. Perguntou se alguém fumava. Ninguém. Onde estão esses viciados geralmente inconvenientes quando se precisa deles? Até eu que abomino cigarro preferiria inalar nicotina e alcatrão na qualidade de fumante passiva a respirar numa latrina.

O motorista também não fumava. Ela disparou sem dó nem piedade: “Você também, hein? Vou te contar… Não dá para ir lá atrás jogar um desinfetante ou abrir alguma janela?”

Ele explicou que já tinha feito o reconhecimento da área e constatara que o senhor de terno que ingressara em primeiro lugar no ônibus tinha usado o banheiro e além de poluí-lo emperrara a descarga, deixando o depósito de dejetos exposto, daí o cheiro de “Sucursal do Inferno”.

Informou que o indivíduo saíra logo depois do primeiro ponto, proferindo em tom de desabafo: “ Eh, tenho que descer, não está dando para aguentar.”

Ao retornar ao volante, fechou a porta que separa a cabine dos passageiros. Ela continuou impassível: “Pode ir abrindo essa porta. É nossa única comunicação com o mundo exterior, é o pouco ar que circula aqui dentro e você tem que sofrer junto com a gente.”

O desespero estava atingindo proporções incalculáveis. Até que o ingresso de uma mulher reverteu o quadro. Retirada de uma chuva então mais forte num trecho do caminho em que é raro ainda existir vaga, subiu os degraus da escadinha da entrada e disse quase emocionada: “Ai motorista, graças a Deus!”

Foi o bastante para que o grupo mais antigo, comunicativo e sabiamente assentado perto da porta, em que eu figurava, explodisse numa gargalhada. Coitada… Graças a Deus… Ela não sabe o que a espera…

Assim que entrou, achando-se abençoada e sortuda, deu um passo e numa fração de segundo exclamou, trocando a expressão de gratidão pela de pânico: “Ai meu Deus, que cheiro é esse?”

Fomos às lágrimas de tanto rir, doeu o estômago e, mesmo sensibilizados com a chegada de mais uma vítima, foi impossível segurar.

Cheguei em casa. Apesar de não ter vomitado, o enjoo me consumia, mas como boa brasileira só conseguia me lembrar de rir até chorar, de como os infortúnios aproximam os estranhos e, claro, de que tem sempre alguém pior do que nós.

Amanhã é sábado, depois domingo. Dois dias sem passar pelo menos três horas no trânsito. Segunda-feira será outro dia. Afinal, um ônibus cheirosinho não é tão ruim assim e sorrir quando se chega à Barra após o sacrifício nosso de cada dia é inevitável. Pode crer.

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{ 11 comentários… leia-os abaixo ou acrescente um }

lilia 01/04/2012 às 12:40

CARAAAAAAAAAAAAAACA AMIGA VC ALEM DE TUDO AINDA ESCREVE SUPERRRRRRRRRRRR AMEI
BJSSSSSSSSSSSSSSSSSS

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Tibor 01/04/2012 às 16:13

Pois é, Claudinha. Não vou perder uma só história desse seu blog. Ao fim de um ano vc pode até lançar um livro, vai fazer o maior sucesso!!! Beijos!!!!

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Andréa 02/04/2012 às 10:07

Imagino o desespero, passei meses tomando um Dramin no Menezes Cortes antes de embarcar no frescão para a Barra… E isso sem cheiro nenhum! Mas pelo menos rendeu um ataque de riso, né? Bjs e parabéns pelo blog!

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Meireles 02/04/2012 às 12:12

Adorei. Morri de ri. Não sabia que vc tinha, tb, este talento.

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Ricardo Autran 02/04/2012 às 13:42

Depois de ler esta crônica tenho uma certeza: Millor deixou procuração com validade post mortem à Cláudia. O fluir da narrativa me fez quase sentir o odor daquele trágico trajeto de ônibus. Desconhecia até então essa grande qualidade de uma amiga de quase 13 anos. Continue sempre, tenho certeza que mais adiante serei apenas mais um dos milhares de leitores que virão se deleitar vistando seu blog.

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Tamirys 02/04/2012 às 23:18

Cláudia, vi a “propaganda” do seu blog no facebook da Karla. Amei, não sabia que você também tinha essa qualidade, suas histórias são as melhores!
Estou morrendo de saudades do alto astral da nossa sala, um dia passo lá para fazer uma visitinha e conhecer a nova estagiária! Enquanto isso, vou matando as saudades pelo blog. beeeijos

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Cláudio José 03/04/2012 às 22:42

Grande amiga,

Bem, posso dizer que acompanhei o embrião desta crônica,até por ter convivido de perto com o cenário do episódio. Com este texto pude conhecer, tempos atrás, o seu lado multifacetado. Texto cativante, que traduz o sentimento que ronda o fato. Amiga, o seu batismo como blogueira já está mais que sacramentado. Quero outras histórias, dar outros sorrisos, e que esta janela resplandeça ainda mais o seu brilho e inteligência para o universo.

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margarette 04/04/2012 às 17:02

Ótima crônica.Menina, que sufoco! Imagine os ônibus para o Nordeste, que leva dois, três dias para chegar ao destino…..

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zilda 06/04/2012 às 17:42

Meus parabéns pelo Blog. Adorei. A crônica sobre o cheiro me fez lembrar a Zaquie, que dizia algo assim : “Engoliram um urubu com papo e tudo. Favor deixá-lo de fora quando utilizar o toillet.”. O amigo de terno não tem como base esta frase simples.

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Luiz Antonio 10/04/2012 às 08:33

Olá Manica !!! Vindo de você o que se poderia esperar !!!! Bom gosto né !!! Adorei !!! Te Amo !!! beijos.

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GR 13/02/2013 às 18:26

ararararara. só vi vc com echarpe filtrando o ar irrespirável com óculos segurando… vi sua expressão! Ri a valer com o trágico , o mal- educado ou será doente ( pois só assim se utiliza um banheiro que não o seu) fez uma confraternização provocando um conhecer daqueles que dividem um espaço diário por um bom tempo e muitas vezes nem se olham, rarara, que tal o positivo de tudo isto? E o alívio de se chegar ao lar não pode ser descrito. Parabéns. Foi bom enviar mail lembrando seu blog. Eu ainda não realizei o meu…escondo-me na web invasiva…e as vezes abusiva, rarara. Penso em fazer site sobre pai e/ou avô. bj.

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